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CINE BRASILIA – Uma história verdadeira de estudantes que quase viraram “terroristas” ocorrida na década de 60/70 em Tabatinga/SP

agosto 11, 2009

SP. Prof. Dr. Osmar Malaspina

Professor da UNESP – Rio Claro


Meados de 1968, a situação política do país era extremamente complicada, onde ocorria uma intensa repressão por parte do governo militar que tinha assumido o poder em 31/03/64, aos chamados grupos terroristas.

Tabatinga na época era uma cidade bem pequena e observava os fatos de maneira um pouco diferente. Apenas alguns estudantes, que naquele momento freqüentavam universidade fora da cidade, tinham algum conhecimento mais profundo da situação. Entre esses estudantes estavam Dermerval Silva (Barrão), Zé Mira, Rubens e José Luiz Quarteiro, Nilton Martinez, Francisco Gandolfi (Tiesco), Cláudio Vicentini (Taxinha), João Martins, Antonio Marquesi, Osmar Malaspina (autor do texto) e outros que não lembro mais.

Atividades de lazer, principalmente nos períodos de férias, resumiam-se em longos papos diurnos e noturnos nos bancos da praça, futebol e os filmes do Cine Brasília. A maioria dos namoros, sempre escondido dos pais ocorria no escurinho do cinema.

Este é o eixo central desta história. Eis que os proprietários do único cinema da cidade, Cine Brasilia (Capelli & D’Abruzzo) resolveram fecha-lo. Claro que hoje eu entendo que o advento da televisão, que se iniciava no Brasil nos anos 60, foi o maior responsável por isso. Mas para nós, isso não interessava. Nós queríamos o cinema funcionando, pois ainda na havia motel, ninguém tinha carro…onde iríamos namorar?

Durante algum tempo manifestamos nossa indignação pela atitude dos proprietários, sem procurar entender a questão financeira. A idéia de pichar o cinema era um dos assuntos das nossas conversas nos bancos da praça. Mais tarde essa indignação passou para atitudes de ação. Só que essa ação não foi concretizada pela maioria do grupo que freqüentava a praça, mas sim por mim e pelo Euclides Claro, que não era estudante universitário. Nessa época, ele já trabalhava e era muito querido na cidade, por ser um dos melhores jogadores do TEC (Tabatinga Esporte Clube). Lamentavelmente o Clidão, como era conhecido faleceu há muito tempo e não pode confirmar essa história, de modo que, sou a única testemunha do fato.

Uma noite fria de inverno, após as chamadas conversas noturnas do banco da praça, quando voltávamos para nossas casas, paramos mais um pouco na esquina onde é hoje o Banespa. Durante a conversa de final de noite, surgiu a idéia de concretizar o protesto contra o fechamento do cinema. A luminosa idéia foi, vamos pichá-lo. Não tínhamos nada preparado. Lembrei-me de umas latas de tinta de parede que meu pai havia deixado no rancho do quintal da minha casa. Minha casa é a mesma onde mora minha mãe até hoje, em frente a Caixa Econômica Estadual. Fui até lá e só achei uma lata de tinta cor de rosa. Não achei pincel. Fomos até o cinema e como não tínhamos pincel, improvisamos uns pedaços de madeira e com a mão jogamos alguns respingos de tinta desordenadamente nas paredes. Concentramos um pouco mais ao redor da bilheteria. Não conseguimos escrever nada legível. Voltamos para casa e procurei guardar muito bem a lata de tinta.

Ao acordar no outro dia, por volta das 8 horas, a notícia já tinha se espalhado pela cidade. Indo em direção ao cinema pela Rua Episcopal, encontrei no caminho o Luiz Del Ducca (já falecido), que contou o ocorrido. Disse-me ele que terroristas (opositores do regime militar da época) tinham, atacado e pichado o cinema. Chegando na praça, vi a entrada do cinema rodeada de uma grande quantidade de pessoas. Aproximei-me e ouvi os mais diferentes tipos de comentários. Também vi muita gente lendo nas paredes, várias frases que tenho certeza, jamais escrevemos. Um pouco mais tarde o Sr. Roque de Rosa (ainda atuante) jornalista da Radio Ibitinga, anuncia solenemente: Terroristas atacam cinema de Tabatinga.

Mais tarde começou a circular outro boato, que a policia técnica de Araraquara estava vindo para Tabatinga para levantar as impressões digitais. Fiquei apavorado. Conhecia bem meu pai, caso ele ficasse sabendo da minha participação no episódio. Nos dias que se seguiram todas as conversas das rodinhas giravam em torno do fato ocorrido. Nessa época, um dos locais preferido para as conversa noturnas era em frente ao Clube Municipal. O pessoal ficava sentado nas cadeiras colocadas na calçada. Eu também participava dessa rodada de conversa e ficava ouvindo as muitas fantasias e suposições que o pessoal fazia sobre o ataque dos terroristas. O escrivão de policia da época, o Sr. Antonio Serafim Fucci era um dos primeiros a chegar na roda e dizia abertamente que ele e a policia sabiam quem eram os terroristas. Eu sentado ao lado tinha dois tipos de sentimentos: um a de orgulho por ter feito e outro de medo, porque se a policia sabia, certamente estaria encrencado.

Bem, passaram-se vários dias, os boatos diminuíram e nada aconteceu de mais grave. O medo sumiu e então veio á idéia de pichar novamente. Só que agora com planejamento e sem improvisações. Assim foi feito, aumentando o número de participantes. O Euclides Claro não foi. Fomos em quatro. Eu, (hoje professor da UNESP), o Ivair Carlos Rossi (hoje residente em Ibitinga), o José Luiz Quarteiro (hoje prefeito da cidade) e o Benedito Aparecido Prevato (Diretor do O Jornal, falecido recentemente). Quem diria que hoje esses jovens da época, tornaram-se respeitáveis cidadãos.

Compramos tinta vermelha e ficamos até tarde na casa do José Luiz ouvindo o jogo do Palmeiras x Guarani e um pouco mais tarde dirigimos até o cinema para fazer o serviço. Naquele época não tinha jogo na televisão…..tinhamos que ouvir no radio. Enquanto um vigiava, os outros cuidavam da tinta e eu escrevia. Lembro perfeitamente das frases: “Não percam hoje, Os Miseráveis” do lado esquerdo e perto da bilheteira. Do lado direito escrevi: “Na próxima vez atearemos fogo em tudo”. Em seguida, caminhamos em direção ao jardim e fomos respingando marcas de tinta em círculo até o obelisco central onde marcamos com um X.

Novamente no outro dia pela manhã, a Radio Ibitinga noticiava que os terroristas tinham atacado novamente. Os boatos recomeçaram. Agora diziam que tinham certeza que eram estudantes terroristas os culpados, pois as frases estavam corretamente redigidas, inclusive á acentuação da palavra miseráveis.

Outra grande discussão polêmica das rodas de bate papo em frente ao Clube Municipal, era tentar acertar o horário que tinha ocorrido o fato. Uns diziam às 2 horas da manhã, outros as 3, 4 ou 5 horas. O horário correto não recordo, mas deve ter sido muito mais cedo, logo depois do término do jogo do Palmeiras. Outra história que surgiu foi que o Sr. Angelim (também não recordo o sobrenome dele), que trabalhava com o Sr. Hugo Capelli, ficava escondido em cima da árvore localizada na esquina do jardim e em frente ao cinema. Nunca tivemos confirmação se isto era verdade ou não.

Até o padre da época, durante as missas pedia para os terroristas não atearem fogo, pois esse poderia atingir outras casas, inclusive a Paroquial que era (e ainda é) vizinha ao cinema.

Novamente os boatos acalmaram com o passar o tempo. Começamos então a preparar o terceiro ato de pichação. Pretendíamos fazê-lo novamente e muito melhor organizado. No entanto um fato novo ocorrido após uma brincadeira dançante no Clube Municipal impediu nossa ação.

Nessa noite não sei por que, fui dormir cedo. Muita gente estava no clube. Não sei o horário, mas certamente após o termino da brincadeira dançante, alguns pessoas resolveram completar o que tínhamos começado. Até onde eu sei, nenhum dos meus companheiros que tinham participado das anteriores participou dessa ação. Muitos nomes circularam na época. Infelizmente não posso nomea-los, porque nunca tive confirmação de nenhum deles.

A ação que eles fizeram foi bem mais exagerada que as nossas ingênuas pichações. A porta do cinema era de vidro e eles atiraram diversas pedras de grosso calibre, quebrando-os. O barulho foi intenso, acordando toda vizinhança, inclusive o padre e um dos donos, o Sr. Osmar D’Abruzzo que morava na Rua Episcopal e perto do cinema. Segundo relatos da época, após o ato houve uma correria generalizada pelas ruas da cidade naquela madrugada. Esse ato, mais uma vez assustou todo mundo na cidade, inclusive eu. Agora a brincadeira inicial tinha ficado séria demais, com graves prejuízos, o que certamente provocaria um inquérito policial e eles poderiam chegar até os responsáveis pelos atos anteriores.

Até onde eu sei, as investigações da polícia não deu em nada. O boato que correu na época era que havia filhos de gente importante envolvido e por isso o caso não foi adiante. Até hoje não sei se essa versão é verdadeira ou não.

Após esse episódio a turma do bate papo de frente ao clube acabou provocando uma outra brincadeira para atormentar um dos proprietários (Osmar D’Abruzzo). Todas as noites alguém batia com força um dos tampões que existiam na fonte luminosa que ficava e fica ainda em frente ao clube. A idéia era assustar o proprietário, como se estivesse ocorrendo um novo ataque.

Com o passar do tempo, a brincadeira foi diminuindo e por fim desapareceu. Os boatos também desapareceram ou foram esquecidos. As noticias de ação de terroristas nunca se concretizaram e o que era um protesto de jovens enamorados não alterou o rumo das transformações pelas novas tecnologias.

Posteriormente os proprietários reformaram o velho prédio do cinema, mas nosso principal objetivo nunca foi atingido. O advento da televisão continuou fechando muitos cinemas na maioria das cidades brasileiras. Nosso Cine Brasília nunca foi reaberto e atualmente os namoros mudaram de local com a criação dos motéis. O país também mudou, o regime militar desapareceu e com ele os chamados terroristas e “terroristas”.

Isso ficou na minha memória e agora quase 40 anos depois, lembrei-me claramente disso ao assistir o belíssimo filme italiano “Cinema Paradise”. Com a mesma temática, tal como no filme, as histórias do declínio dos cinemas são semelhantes, quer numa cidadezinha no interior da Itália ou na cidade onde nasci (Tabatinga) no interior de São Paulo.

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